Imprensa

31 out 2016
Unimed-Rio aposta na venda de hospital e de sede para pagar dívidas

Unimed-Rio aposta na venda de hospital e de sede para pagar dívidas

Pollyanna Brêtas

Jornal Extra RJ – 31/10/2016

Um peso pesado do mercado financeiro assinou um contrato com a Unimed-Rio para viabilizar a venda de ativos e bens da operadora de saúde. Com mais de 850 mil clientes, a cooperativa enfrenta uma grave crise financeira e dívidas que somam, segundo associados, R$ 1,8 bilhão. De acordo com o plano de saúde, os ativos prioritários para a negociação são o Hospital Unimed-Rio e a sede administrativa, ambos na Barra da Tijuca. O Santander foi escolhido porque atuou na recuperação da Unimed-ABC, em São Paulo. Segundo fontes do setor, a operação é considerada um projeto-piloto, que terminou com a venda dos ativos da cooperativa paulista para a Notre Dame Intermédica.

No total, foram negociados um hospital, com 110 leitos, duas unidades pronto-atendimento e cinco centros clínicos, mas a operação envolveu, também, a alienação da carteira de clientes. A Unimed-Rio, no entanto, rechaça a venda de sua carteira de clientes.

— A negociação dos ativos da Unimed-Rio é muito mais complexa até pelo número de usuários, que é muito maior do que a do ABC, mas foi a primeira vez que se conseguiu fazer um negócio deste tipo — disse uma fonte do setor.

A Unimed-Rio informou que conseguiu reequilibrar o caixa mensal e normalizou o atendimento. Em alguns casos, porém, usuários vêm recorrendo à Justiça para garantir tratamentos. Foi assim que a estudante Janine Nunes, de 21 anos, conseguiu fazer um procedimento para tratar um câncer muscular.

— Fiz quimioterapia por dois meses, mas a doença se agravou, comprometendo meu braço. Mas o plano não cobriu e entramos com uma ação judicial.

Redução do mercado foi de 42%, em 15 anos

Para especialistas, a concentração é um dos principais problemas do mercado de planos de saúde no país. De acordo co Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), cerca de 615 operadoras deixaram o mercado, uma redução de 42%, em 15 anos. Os motivos, segundo o relatório, vão desde a impossibilidade de reunir reservas de capital até o cumprimento de parâmetros regulatórios.

— Para as operadoras, por exemplo, os planos individuais não compensam mais, porque os reajustes dependem da ANS, o que não acontece nos planos coletivos (oferecidos por empresas aos funcionários) — disse o advogado Rodrigo Araújo, especialista em Direito à Saúde.

A migração de clientes de um plano que acaba para outro também tem sido uma experiência traumática.

—Normalmente, vem com alta da mensalidade e redução da rede credenciada — disse o advogado Júlio Moraes, do escritório Hoffmann e Moraes

Cooperados se mobilizam

Médicos cooperados promoveram um encontro, na Praia de Copacabana, no fim de semana, para mostrar que os profissionais estão empenhados no atendimento dos pacientes e querem a recuperação financeira da empresa. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) recomendou um aporte na ordem de R$ 500 milhões pelos médicos credenciados, mas, em assembleia, os cooperados não rejeitaram a proposta.

— Tudo está sendo feito para um enxugamento da empresa. A verdade é que a grande maioria dos cooperados não tem condições de aportar mais recursos. Já estávamos sendo descontados em 30% nas consultas. Cada médico teria uma dívida. No meu caso, pediram R$ 86 mil. Quem tem este dinheiro para pagar à vista? Mas nós continuamos trabalhando e atendendo os pacientes — disse a médica Camen Sonia Carvalho, que organizou a mobilização.